A cidade como rede: onde estão os empregos e por onde passam os fluxos
28 de julho de 2026Dentre as ferramentas que a ciência de dados traz ao planejamento urbano, uma das mais interessantes é a análise da cidade como uma rede. Esse método de leitura do ambiente urbano não é uma novidade, mas a forma como conseguimos adaptá-lo a diferentes contextos ou objetivos faz com que sempre surjam novas possibilidades para serem exploradas.
Na análise de redes urbanas, a malha viária de um município é lida como um grafo, em que cada esquina é um nó e cada trecho de via é uma conexão. Sobre essa estrutura, é possível posicionar os dados de domicílios, serviços e vínculos de emprego formal, e então calcular como uns se conectam aos outros. Dessas conexões, extraem-se métricas que descrevem a cidade sob ângulos diferentes. Aqui apresentamos duas delas, que temos utilizado nos projetos do Instituto Cidades Responsivas.
A primeira métrica olha para os benefícios locacionais que cada área possui. Para cada porção da cidade, calculamos a distância média percorrida pela malha viária até todos os serviços e vínculos de emprego geolocalizados. Essa distância é convertida no que chamamos de Oportunidade Espacial: quanto maior o valor, mais fácil é o acesso às facilidades que o ambiente urbano oferece, tornado o local mais atrativo para novos residentes. O mapa abaixo aplica essa lógica a um recorte de São Paulo, no qual valores mais altos (tons claros) indicam áreas com acesso mais fácil a empregos e serviços.

O que esse mapa mostra que o simples mapeamento dos empregos não mostraria? O efeito das conexões viárias em aproximar determinadas áreas das oportunidades urbanas. Repare como os eixos da Rodovia Anchieta e da Avenida dos Estados “esticam” a faixa de valores intermediários no sentido sudeste, aproximando “artificialmente” essas regiões dos empregos do Centro. Não é a distância geográfica que define o acesso, mas a distância percorrida pela rede, por isso uma via estruturante é capaz de encurtar essa segunda distância, alterando a atratividade dos espaços ao seu redor.
A segunda métrica aborda a estimativa de fluxos em cada eixo viário, indicando quanto cada trecho de via é utilizado para conectar domicílios a empregos. Para isso, conectamos cada domicílio aos vínculos de emprego pelo menor caminho na malha viária e, para cada trecho de via, contamos de quantas dessas conexões ele participa. Aplicamos ainda uma ponderação que faz com que pares de domicílio e emprego mais próximos pesem mais do que pares distantes. O resultado é a Convergência Espacial, uma medida de quanto cada via tende a ser usada como caminho entre moradias e trabalho.

Na análise para Salvador ilustrada acima, a Avenida Paralela, a leste, se destaca como um dos principais eixos de conexão do Centro a bairros afastados, com dois fatores explicando esse destaque. O primeiro é a força do Centro, que concentra empregos e serviços em quantidade suficiente para tornar provável que mesmo moradores distantes se desloquem até lá. O segundo é a densidade viária menor da porção leste de Salvador, que oferece poucas alternativas de percurso para os bairros mais afastados, com o fluxo sendo obrigado a passar pela Paralela, amplificando seu peso na análise.
Assim como no mapa de Oportunidade Espacial, o valor prático deste tipo de leitura está em oferecer, em pouco tempo, uma intuição sobre as dinâmicas de lugares que não conhecemos de perto. A malha viária, cruzada com quem mora e quem trabalha, conta uma parte considerável dessa história. E, quando não conta, ao menos rende um mapa bonito.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.