A cidade começa na moradia

24 de fevereiro de 2026

Eu nasci e cresci em uma moradia precária. Quando chovia, a água invadia a casa e transformava a rotina em tensão. Dormir significava torcer para que os ratos não passassem. Dividir quarto não era escolha, era necessidade. Cresci com crises de sinusite constantes, naquela época eu não sabia que aquilo tinha nome técnico: insalubridade habitacional. Eu só sabia que morar doía. E é impossível separar essa experiência da forma como hoje eu penso a cidade.

A cidade começa antes, começa na moradia. É dentro da moradia que a vida urbana se estrutura. É ali que o corpo descansa, que a mente desacelera, que a infância se desenvolve, que o trabalhador se recupera, que o estudante encontra (ou não) condições para aprender. Quando a casa é insalubre, úmida, escura, apertada ou insegura, estamos diante de um problema de saúde pública, de educação, de produtividade e de dignidade.

Diferentes estudos já demonstraram a relação direta entre condições habitacionais precárias e doenças respiratórias, estresse crônico, ansiedade e depressão. A exposição contínua à umidade, ao mofo, ao calor excessivo ou ao frio extremo impacta o sistema imunológico. A superlotação compromete o sono, a concentração e as relações familiares. A ausência de ventilação e iluminação adequadas afeta o conforto e o equilíbrio emocional.

Falar de moradia é falar de saúde física, mental e emocional. E, ainda assim, o investimento público frequentemente prioriza intervenções visíveis e de grande escala, enquanto milhares de famílias seguem vivendo em condições que adoecem silenciosamente. Se queremos discutir cidades inteligentes ou sustentáveis, precisamos começar pelo básico: casas dignas.

O desenvolvimento territorial não se sustenta quando o território íntimo, a casa, está fragilizado. Não há política urbana eficaz que compense o impacto de uma moradia precária. Investir em moradia é investir na base da cidade. É reduzir gastos futuros em saúde. É melhorar o desempenho escolar. É fortalecer vínculos familiares. É aumentar a produtividade econômica. É diminuir desigualdades.

A cidade não se transforma apenas com grandes planos diretores ou discursos sobre inovação. Ela se transforma quando o lugar onde as pessoas vivem deixa de ser um espaço de sobrevivência e passa a ser um espaço de dignidade.

Se quisermos, de fato, pensar no futuro das nossas cidades, precisamos reconhecer uma verdade simples e urgente: a cidade começa na moradia e é ali que o investimento público deve começar também.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Arquiteta e ativista urbana, pós graduada em urbanismo social e habitação e cidade, mestre em Projeto, Produção e Gestão do Espaço Urbano, Doutoranda em Arquitetura e Urbanismo, atua com a gestão de projetos e ações sociais em territórios periféricos no Instituto Fazendinhando.
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