Recentemente estive com meus alunos do curso de Arquitetura e Urbanismo na região da Praça da Cruz Vermelha, na área central do Rio de Janeiro. A intenção da visita era conhecer a área onde estamos desenvolvendo um projeto acadêmico que abrange quase uma quadra inteira, justamente no local previsto para a expansão do complexo do Instituto Nacional de Câncer (INCA). Nesta coluna, quero compartilhar algumas reflexões provocadas por essa experiência.
A região da Praça da Cruz Vermelha começou a adquirir sua configuração atual no final do século 19, a partir das transformações decorrentes do desmonte do Morro do Senado, sendo posteriormente impactada pelas reformas urbanas do início do século 20. Ao longo do tempo, consolidou-se como importante polo médico e assistencial, além de reunir conjuntos arquitetônicos de interesse. Tudo isso a menos de 2 km do centro administrativo da Prefeitura.
Nossa visita aconteceu em um sábado. A primeira impressão dos alunos foi de insegurança. Encontramos muitas pessoas em situação de vulnerabilidade, enquanto as ruas no entorno da quadra estavam praticamente vazias, com lixo, carros estacionados e pouco movimento de pedestres. Na praça em frente ao INCA havia alguma circulação relacionada ao hospital, mas ainda predominava a sensação de um espaço público pouco convidativo.
Em uma rua lateral, entretanto, encontramos uma situação completamente diferente: acontecia uma feira livre, cheia de pessoas. Naquele pequeno trecho havia comércio, circulação, encontros e vitalidade.
Foi justamente essa diferença que mais me fez refletir. Se as ruas pareciam vazias, mas a feira estava cheia, onde estavam aquelas pessoas antes? É razoável imaginar que boa parte delas more na própria região. Talvez o problema, portanto, não seja apenas a ausência de moradores, mas a falta de motivos para permanecer e circular pelas ruas. Faltam espaços públicos atraentes, lojas abertas, fachadas ativas e atividades que funcionem ao longo do dia. A feira demonstrava, ainda que por algumas horas, como uma atividade cotidiana pode transformar a percepção de um espaço urbano.
E surge outra questão: como uma área central, com infraestrutura instalada, ruas, calçadas largas, iluminação, arborização, equipamentos públicos e acesso a diferentes sistemas de transporte não consegue atrair mais moradores e novos empreendimentos? Encontramos ali diversos edifícios subutilizados e trechos com pouco adensamento.
Nesse contexto, também cabe discutir a expansão do INCA. Não se trata de questionar a importância do hospital ou a necessidade de sua ampliação, mas de pensar como um equipamento dessa dimensão, ocupando praticamente uma quadra inteira, poderá se relacionar com as ruas ao seu redor. Precisamos evitar que se transforme em mais um grande condomínio institucional fechado para a cidade.
Enquanto novos empreendimentos avançam sobre áreas cada vez mais distantes do Centro, especialmente nas zonas Sudoeste e Oeste, não deveríamos olhar com mais atenção para os inúmeros fragmentos urbanos já dotados de infraestrutura e que permanecem subutilizados?
Cada vez mais me convenço de que o Rio precisa também de pequenos projetos urbanos. É instigante pensar em grandes planos, parques e equipamentos, mas talvez algumas das transformações mais necessárias estejam em uma escala muito menor: o lote, a calçada, a rua e a quadra.
Talvez essa escala não produza grandes manchetes nem tantos seguidores nas redes sociais. Mas pode ser justamente nela que comece a recuperação da vida urbana nas áreas mais centrais da cidade.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.