Muitas alegrias e um lamento
Há 17 anos, a plataforma Archdaily, especializada em arquitetura, premia os melhores edifícios de 15 diferentes categorias, a partir de publicações enviadas do mundo todo. Basta se inscrever gratuitamente para votar. Este ano, foi a reforma parcial de uma casa em Feira Nova-PE, denominada “Casa de Mainha”, de autoria de José Vágner Barros, do Studio Zé Arquitetura, a grande vencedora da categoria “casas”.
As 5 finalistas do Building of the year 2026 dessa categoria foram:
· Casa de Mainha. Studio Zé, Brasil, 165 m²
· Our Forest. CTAA Architects Lab, Taiwan, 450 m²
· House E. Studio 1:1 Design, Quênia, 852 m²
· Bahía de Banderas House. o.d.e, México, 2.350 m²
· Villa Uma. Case Design. Índia, 3.908 m²
Dessas, apenas as duas primeiras são casas urbanas. As outras três, lindas e gigantescas, parecem ser casas de fins de semana, para serem usadas por quem já tem uma moradia na cidade. Casas para poucos. A casa de Taiwan, um pouco menos gigante, tem uma cobertura linda e exclusivíssima, feita com 396 peças de madeira, cada uma com uma curvatura diferente. Outra casa para poucos.
A casa do Brasil destoa radicalmente das outras finalistas (e da quase totalidade das casas publicadas no site), dentre outras coisas, porque ela, antes da reforma que a premiou, simboliza a maioria do estoque residencial unifamiliar edificado do planeta. Um estoque construído pelas mãos de seus moradores, dentro das restrições, não das possibilidades.
A arquitetura que a transformou é aquela de que a gente precisa, no Brasil e no mundo. Aquela a que a maioria da população, por uma série de infelicidades, não tem acesso, mas que Dona Marinalva, a proprietária, teve. Isso porque ela não contratou um arquiteto: ela criou um arquiteto. Um arquiteto que reformou a casa onde ele mesmo cresceu para lhe dar mais luz, amplitude, salubridade, frescor, beleza e significado. Sugiro entrar no Instagram @zeoarquiteto e ver o arquiteto Zé explicando tudo, do jeito mais cativante possível. Falando das desconfianças da cliente com as escolhas bioclimáticas, dos convencimentos que ele precisou fazer, das batalhas que ele perdeu.
É uma alegria ver o que o Zé fez pela casa da mãe dele. É uma alegria ver tanto conhecimento aplicado, tanta cultura presente, tanta solução boa. É uma alegria ver que foi essa, exatamente essa, a casa premiada.
Mas no meio de tanta alegria, vou trazer meu lamento. A “Casa de Mainha” também simboliza o tempo em que vivemos: é uma casa que se fecha para a rua. Sua fachada, que antes tinha duas portas e duas janelas, agora é praticamente uma parede cega.
Em uma de suas publicações, Zé conta que sua mãe não queria que se fizesse “muita coisa voltada para a rua, porque ela é uma pessoa mais introspectiva”, e aí ele criou “uma fachada interna com a parede um pouco mais alta do que a fachada externa”. Assim, o que antes era uma casa sem recuo frontal virou uma casa recuada, a fachada original tendo virado um muro com uma única porta. E um muro alto, como ele explica: “Eu mantive a altura da fachada original, a pedido da minha mãe. Eu queria diminuir um pouco a fachada, mas ela tem medo do ladrão pular.”
Zé sabe da importância da fachada. Em outra publicação, onde cita Kevin Lynch, Gordon Cullen e Jan Gehl, ele diz: “a fachada não é somente sua, a fachada é da paisagem urbana, e a paisagem urbana é de todo mundo, é um bem coletivo”. Ele está certíssimo.
É uma pena, Zé, que você não tenha ganho essa batalha. Tenho certeza de que você é absolutamente capaz de fazer uma interface mais gentil com a rua, com o talento que o fez merecedor inquestionável desse prêmio.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.