96% dos brasileiros têm uma viagem em mente. E se a sua cidade fosse o destino?

22 de janeiro de 2026

Uma pesquisa recente revela que 96% dos brasileiros pretendem viajar nos próximos 12 meses. O dado é do estudo O Viajante Brasileiro, do Gente/Globo, e aponta para algo poderoso: o desejo de deslocamento é hoje quase universal no país. Mas, mais do que falar sobre turismo, esse número escancara uma oportunidade urbana.

Se quase todo mundo quer viajar, alguém vai receber essas pessoas. A pergunta estratégica é: quais cidades estão se preparando para ser desejadas por quem não mora nelas?

Durante muito tempo, o planejamento urbano brasileiro se concentrou apenas em atender o morador permanente. Turismo, quando considerado, foi tratado como atividade acessória — restrita à hotelaria, à promoção institucional ou a eventos pontuais. O que mudou é que o visitante de hoje não quer apenas “visitar”. Ele quer experimentar a cidade.

Quer caminhar com conforto, comer bem, sentir segurança, acessar paisagens naturais, viver o cotidiano local. Quer bairros vivos, comércio de rua, cultura acessível, espaços públicos convidativos. Em outras palavras: quer cidades que funcionem bem também fora da lógica estrita da moradia.

Nesse cenário, cidades que se estruturam para receber bem o não residente ampliam sua base econômica, fortalecem o comércio local, ativam o mercado imobiliário e diversificam suas fontes de receita. Turismo, aqui, deixa de ser sazonal e passa a ser estratégia urbana.

O Nordeste brasileiro oferece exemplos claros dessa oportunidade. Lugares que combinaram natureza, escala humana, boa arquitetura e identidade local deixaram de ser apenas destinos de férias e passaram a atrair estadias mais longas, trabalho remoto, investimentos e novos moradores temporários. Não por acaso, são cidades onde o espaço público funciona, onde o lazer é cotidiano e onde a cidade se apresenta de forma clara e legível.

Ser uma cidade desejada por não residentes não significa perder identidade ou se transformar em cenário. Significa, ao contrário, investir naquilo que é estruturalmente bom para quem vive ali: mobilidade simples, paisagem preservada, diversidade de usos, serviços próximos e espaços de convivência.

A cidade que é boa para o visitante tende a ser ainda melhor para o morador.

O dado dos 96% deve ser lido como convite. Existe uma demanda latente por cidades mais agradáveis, mais humanas e mais interessantes de viver — nem que seja por alguns dias. Cabe aos gestores, planejadores e investidores entender que competir por pessoas é, cada vez mais, competir por qualidade urbana.

No fim das contas, a cidade desejada é aquela que não precisa convencer ninguém. Ela simplesmente funciona.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Arquiteta e urbanista, especialista em Gestão de Projetos e mestre em arquitetura pela UFRN. Atualmente é sócia da PSA Arquitetura em São Paulo (www.psa.arq.be) e da PROA Brasil (www.proabrasil.com), em Natal-RN.
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