68 horas

4 de junho de 2026

O Brasil está prestes a aprovar a semana de 5 dias e 40 horas. Todos se congratularam, orgulhosos de seu desprendimento. Inúmeros discursos sobre dignidade, qualidade de vida e modernidade nas relações de trabalho. E o trabalhador brasileiro, aquele de verdade — o que acorda às 5h da manhã num bairro sem nome no fim da linha do ônibus — vai continuar chegando em casa às 21h, exatamente como antes.

Porque ninguém, em nenhum momento do debate, falou das outras 24 horas.

Numa semana de 44 horas no modelo 6×1, um trabalhador típico das periferias brasileiras passa cerca de 4 horas por dia em deslocamento — 2 para ir, 2 para voltar. São 24 horas semanais dentro de ônibus ou trens suburbanos superlotados, caminhos disfarçados de ônibus, conduções que quebram e calçadas que machucam. Some isso às 44 horas trabalhadas: a jornada real, aquela que consome o corpo e o tempo de vida, é de 68 horas semanais.

Com o novo modelo, ela cai para 60. 8 horas a menos, num universo de 68.

Isso não é reforma, é apenas mudança. É aquele tipo de mudança que parece grande nos holofotes, mas com impacto real bastante relativo no cotidiano.

A jornada diária não muda, realmente. As 8 horas de trabalho somadas às 4 de deslocamento continuam bloqueando qualquer outra atividade — lazer, estudo, saúde, convivência, participação. O trabalhador continua acordando de madrugada e voltando já de noite. Continua expulso da cidade, confinado em franjas urbanas mal planejadas e distantes de tudo que uma cidade deveria oferecer: escola boa, posto de saúde funcionando, praça com gente, comércio na calçada, vida.

Não é o meio dia livre aos sábados que vai devolver a esse trabalhador o acesso à cidade. Não é esse tempo que vai permitir que a filha vá à natação, que o casal vá ao cinema, que o pai apareça na reunião escolar do filho, que o curso profissionalizante esteja ao alcance da mão e caiba no dia. Para quem mora a 2 horas de qualquer coisa que valha a pena, meio dia não chega a lugar nenhum.

O problema nunca foi a escala de trabalho. É onde essas pessoas moram — e por quê.

Moram longe porque a terra próxima ao trabalho, aos serviços e às oportunidades é cara demais. É cara porque as cidades brasileiras são deliberadamente esparsas: zoneamentos que proíbem densidade, afastamentos obrigatórios que desperdiçam solo urbano valioso, uma cultura urbanística que há décadas empurra os mais pobres para onde o metro quadrado ainda cabe no salário — mesmo que o resto da vida não caiba mais.

O resultado é uma cidade que funciona como uma peneira invertida: quanto menos você tem, mais longe você vai parar, e mais caro fica tudo — em tempo, em dinheiro, em energia, em saúde e em dignidade.

Enquanto isso, o debate público se concentra em quantos dias se trabalha por semana. É um debate legítimo, mas que responde a uma pergunta errada. A pergunta certa é: por que esse trabalhador passa 4 horas por dia num ônibus? Por que ele não pode morar perto de onde trabalha? Por que a cidade que ele ajuda a construir e a manter não tem lugar para ele?

A reforma que o trabalhador brasileiro realmente precisa não é trabalhista. É urbana. É a reforma que aproxima moradia de emprego. Que adensa as cidades com inteligência e permite às pessoas viverem onde a cidade pulsa, e não apenas onde ela termina. Que torna o transporte público digno de ser chamado assim. Que revê os zoneamentos excludentes e abre espaço para que a população de menor renda possa habitar as áreas centrais — com tudo o que elas oferecem de oportunidade, conveniência e pertencimento.

8 horas a menos por semana não abrem as portas da cidade. Só encurtam, um pouco, o tempo que se perde para chegar até elas.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Arquiteto e Urbanista, sócio da incorporadora CASAMIRADOR e fundador do INSTITUTO CALÇADA. Acredita que as cidades são a coisa mais inteligente que a humanidade já criou. ([email protected])
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