Preparem seus bolsos (e o vinagre) para os “elefantes brancos” do transporte

Ilustracao
Cerca de um ano atrás fiz uma postagem contra a Copa e as Olimpíadas.

O texto, então, era controverso. Muitos acreditavam que o governo estava finalmente direcionando recursos no sentido certo, “gerando desenvolvimento” no país. Era uma “oportunidade de crescimento”, ou que “grandes eventos como estes certamente deveriam ter apoio estatal”. Transformaríamos nossas cidades e o governo finalmente “liberaria” o dinheiro dos impostos para a nova estrada ou o novo metrô, que hoje é perdido na corrupção. Além disso, um novo senso de patriotismo e uma renovação do esporte brasileiro. Sem esquecermos, aliás, que o “fomento à prática desportiva” é caracterizado um dever do Estado na nossa Constituição Federal, e estaríamos no “direito” de reivindicá-lo. O que recebemos? “Elefantes brancos” que custam bilhões de reais. Percebemos que a Copa e as Olimpíadas são apenas uma retórica elaborada para convencer o povo de que governantes são necessários, criando motivos falsos para justificar a arrecadação.

O povo brasileiro saiu às ruas clamando pelo seu “direito” ao transporte coletivo, sustentado hoje por bilhões de reais já pagos em impostos. Mas será que, assim como a Copa, não estamos sendo enganados mais uma vez? Você já parou para pensar que nem diferenciamos mais o conceito de transporte público e de transporte coletivo? Será que deixando estes bilhões no bolso do povo ele não seria capaz de criar formas de se transportar sem necessidade de ir pras ruas quando transbordam os problemas?

Lima, capital do Peru, ainda possui um sistema descentralizado, com pouca interferência estatal no seu controle. Lá os cidadãos chamam o transporte simplesmente de colectivos, sem qualquer conotação pública, pois é totalmente gerido de forma privada. Diferente daqui, cidadãos não são considerados criminosos por oferecerem serviços de transporte coletivo e perueiros não são recebidos com bombas de gás lacrimogênio e balas de borracha.

Após 20 anos com o modelo em funcionamento, o governo de Lima achou “caótico” o dinâmico sistema que se adpta constantemente de acordo com a transformação da cidade, resolvendo construir uma nova linha de BRT chamada Metropolitano. Pra quem não sabe, o BRT é a última moda latinoamericana de transporte coletivo público, sendo implementado em dezenas de cidades brasileiras – e não ouse contestar sua eficiência. A implementação do Metropolitano estava prevista em cerca de U$135 milhões e hoje a cifra chega nos U$300 milhões, endividando a cidade com o Banco Mundial e o Banco Interamericano. Não supreendentemente, o sistema está com menos da metade do uso considerado eficiente. Para solucionar o problema de não criar um “elefante branco” do transporte, o governo agora toma medidas para proibir rotas de pequenos empreendedores de transporte coletivo que trabalham próximo ao Metropolitano, obrigando a população a usá-lo. A justificativa do gerente de transporte municipal? “Existe transporte coletivo demais na cidade, e ele deve ser limitado.” Afinal, diferente do sistema descentralizado, o transporte estatal precisa de “ordem” para funcionar.

Assim, nosso governo nos entregou ótimos estádios de futebol, e acredito que ele consiga entregar ótimos ônibus. Acredito que muitas pessoas vão orgulhosamente compartilhar imagens do novo BRT na sua cidade nas redes sociais, assim como fizeram com os estádios há um ano atrás. Mas a que custo? O VLT de Cuiabá já passou dos R$1,5 bilhões, mesmo valor do já mítico estádio Mané Garrincha, de Brasília. O BRT do Rio já está orçado em R$1 bilhão. O PAC da Mobilidade Urbana prevê R$783,3 milhões para as novas linhas de BRT em Belo Horizonte, que facilmente ultrapassará a cifra de R$1 bilhão. As obras terão benefícios marginais para o transporte (a história por trás dos impostos) e convencerão a população, pelo menos por enquanto, que tudo valeu a pena.

Enfim, preparem seus bolsos (e o vinagre, se você for um perueiro) para os “elefantes brancos” do transporte.

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