Como o tombamento destruiu a história de uma arquitetura

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O “Castelo de Pau dos Ferros”, enquanto era verdadeiramente tombado. Foto: Thiago Holanda

Eu tombei a minha casa. Para isso, não precisei de qualquer proteção legislativa nem tampouco apelei a nenhuma instância de amparo ao evocado “patrimônio histórico-arquitetônico” da humanidade. Não o fiz como um tributo à História ou como uma reverência à inspiração dos seus construtores. Tratou-se, simplesmente, de um gesto de amor, pois, ao preservar os seus traçados, vitrais, esculturas e, até mesmo, cores originais, eu posso dizer, não sem vaidade, ter vivenciado um dos impulsos mais irrealizáveis do coração: manter para sempre intangível o vigor e o colorido do objeto amado. E assim o fiz durante dezenove anos.

Tudo começou antes mesmo que eu nascesse. Erguida em 1917 pelo dentista Carloto Távora, irmão do mítico general cearense Juarez Távora, a minha casa foi comprada, ainda durante a década de 30 do século passado, pelo meu bisavô. Por entre as suas paredes largas e imponentes, qual uma pequenina catedral, os meus avós maternos festejaram o seu matrimônio e a sua lua de mel. Em seus quartos, a minha mãe brincou e cresceu. Eu também.

Por tudo isso, ao receber a notícia de que a receberia como um presente hereditário, passei, de imediato, a juntar centenas de moedas num cofre infantil para que eu mesmo pudesse pagar a transferência do seu “foro”. Era o mês de dezembro de 1995 e eu contava com onze anos recém-completados. A partir de então, eu era o dono da minha mais querida relíquia familiar. A minha casa estava tombada.

O tempo passou. Com o avanço do comércio, as residências vizinhas, a maioria quase tão ancestral quanto a minha, foram demolidas ou convertidas em espaços retilíneos, desprovidos de qualquer vestígio de criatividade artística ou estilística. Contrariando esse vazio arquitetônico que invadia tudo ao seu redor, a minha casa permaneceu intacta e cada vez mais bela em seu lírico isolamento. Por ideia minha, muitos saudosistas maravilhados passaram a evocá-la como o “Castelo de Pau dos Ferros”.

Essa realidade prosseguiu assim até que, já no ano de 2014, uma vereadora local me comunicou publicamente que estava “se esforçando para aprovar o tombamento dos prédios do centro da cidade”, dentre os quais, destacava-se a minha casa. Ora, indaguei a mim mesmo, como poderia ser isto? Depois de atravessar quase duas décadas conservando-a, caprichosamente, de todas as tentações da cobiça e de propostas de compra economicamente irrecusáveis sem que, para tanto, houvesse recebido nenhum auxílio dos muitos admiradores que aplaudiam, ainda que à distância, a minha resistência solitária, esta seria a minha recompensa? Seria justo perdê-la para o arbítrio oportunista do Poder Público, o qual, além de reduzir exponencialmente o seu valor de mercado, ainda passaria a ditar, como se dono também o fosse, como eu deveria fazer o que já vinha fazendo desde sempre?  Não. A propriedade, assim como o amor, pressupõe a liberdade, em toda a complexidade dos seus pecados e virtudes. Aquela casa era minha, eu a amava e não a entregaria ao jugo de ninguém.

Não transcorreram sequer três dias entre o comunicado da vereadora e o primeiro ato de demolição. Convicto de que não me restavam outras alternativas, improvisei uma “reforma”, justamente, no que a minha casa tinha de mais raro e inconfundivelmente belo: a fachada. À alvorada do dia 9 de setembro de 2014, escutei as primeiras pancadas que anunciavam a destruição do seu arco frontal. Pareciam as batidas de um coração descompassado ante a angústia da ruína iminente. Ao sair, vi os seus tijolos quase centenários caírem, esfarelando-se no chão da sua calçada enquanto a poeira subia como um véu de luto. Em poucos dias, o “Castelo de Pau dos Ferros” se transfiguraria em apenas mais uma dentre as muitas construções retangulares, verdadeiros caixotes de pedra e tinta.

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O início da destruição da fachada da Castelo de Pau dos Ferros. Foto: Thiago Holanda

Infelizmente, a ameaça do tombamento legal me impediu de continuar preservando o colorido e o vigor estilístico da minha casa. Não porque as nossas intenções, a minha e a da vereadora-tombadora, não coincidissem, a princípio. Por mim, ainda teria feito muitas renúncias, inclusive, financeiras para que aquela fachada permanecesse tão jovial quanto o era no ano de 1917. Contudo, só o faria enquanto não me fosse negada a alternativa de optar pelo inverso, de reinventá-la, de alterar as suas cores e ornamentos ou, até mesmo, de destruí-la.

Se a minha liberdade de decidir o que era certo ou errado para a minha própria casa iria ser substituída pela obediência servil de um “padrão estético” imposto pelos outros, sejam governantes de ocasião ou outras figuras covardemente ocultadas pelo emblema do “interesse público”, então tudo estaria invertido e já não mais existiria um autêntico direito de propriedade. Antes que essa inversão ocorresse, preferi eu mesmo pôr pelo avesso os termos do tombamento pessoal que havia feito naquele mês de dezembro de 1995. Ao destruir a sua fachada, senti-me novamente a tombá-la tanto quanto na primeira vez. Preservei a liberdade de ser o seu dono e da minha forma pessoal de amá-la. Nenhum outro tombamento poderia ser mais legítimo.

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O Castelo de Pau dos Ferros após a alteração na sua fachada. Foto: Thiago Holanda

  1. Junior Miranda

    Foi uma atitude extrema, mas compreensível. Não ficou bonito, mas pior seria perder o seu direito à propriedade. Existe uma enormidade de canalhas escondidos por trás da máscara de ‘poder público’.

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  2. Barbara

    bom dia, agradeço a contribuição do texto, principalmente por divulgar a visão do proprietário e sua relação com a casa. Mas sua final atitude foi bastante egoísta. Desconsiderou a importância pública da fachada, que compõe/depõe a todo o contexto urbano, do qual ninguém é dono.
    Entendo a postura dele perante ao recorrente descaso dos novos empreendimentos que vemos por aí, mas é importante defendermos assim como nossa propriedade um bem maior, que é público e de toda a sociedade.

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    • Anthony Ling

      Anthony Ling

      Bárbara, obrigado pelo comentário.

      Não sei se você entendeu a situação colocada ao proprietário. O tombamento não só reduziria drasiticamente seu patrimônio, que estava todo naquela casa, mas também exigiria que ele “preservasse” a casa de outra forma, diferente do que ele tinha feito durante a vida toda. Como ele mesmo falou, não seria mais a casa dele, e sim um imóvel que ele estaria obrigado a cuidar de acordo com os critérios de técnicos de patrimônio.

      Ele foi obrigado a destruir um patrimônio da cidade pela tentativa da sociedade exigir além do que ele, um cidadão exemplar neste sentido (que, de fato, MANTEVE aquele patrimônio, que lembremos que não era o seu dever), tinha condições de entregar, tanto emocionalmente quanto financeiramente. Do contrário, caso não houvesse a tentativa de tombamento, ele seguiria preservando a casa da mesma forma.

      No meu entendimento, age de forma egoísta uma sociedade ou grupo de pessoas que exige o extremo sofrimento de um cidadão para que sinta-se bem.

      Abs

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  3. Fábio

    Concordo com a Barbara. Foi uma atitude extrema com traços egoistas. Com a reforma ele não considerou o valor da casa para a cidade ou como ele diz para seus”admiradores”. Se a ela foi selecionada para ser tombada quer dizer que possui também um valor coletivo. Não sou a favor do tombamento como unica ferramenta de preservação, mas reprovo ainda mais a atitude do proprietário.

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    • Anthony Ling

      Anthony Ling

      Fábio, se foi selecionada para ser tombada não significa que tem valor coletivo. O conceito de valor pressupõe que as pessoas estão dispostas a trabalhar, pagar ou fazer qualquer coisa para que aquele determinado bem ou ser se alinhe com as suas expectativas. O tombamento significa que as pessoas querem obrigar o proprietário a valorizar a casa por elas, pois elas não estão dispostas a abrir mão de nada para que a casa permaneça intacta.

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      • Anônimo

        Anthony, como disse não sou a favor do tombamento como única forma de preservação de bens. Lamento que ele seja uma forma de “engessamento” e que as determinações dos órgãos que realizam o tombamento seja aplicada de forma vertical e arbitrária. Concordo que, a melhor forma de preservação de um bem é a atitude tomada pelo proprietário antes da destruição da fachada, onde os donos tem consciência do valor histórico do imóvel. Porém da mesma forma que critico certas políticas de preservação e seus instrumentos, critico a atitude extrema do proprietário. Na situação descrita todos saíram perdedores.

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        • Anthony Ling

          Anthony Ling

          Entendo. O que você sugere que o proprietário deveria ter feito? Que tipo de atitude viável para o proprietário você não condenaria?

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          • Lília Almeida

            Boa pergunta. Por que será que até hoje não foi respondida?

  4. Jessica

    Mais que certa a atitude. Na minha cidade havia uma residência que seria tombada. O proprietário que sempre havia cuidado bem de sua residência, se viu engessado diante da desculpa esfarrapada do ” interesse da coletividade” – que interesse haveria nisso? -Minha cidade não tem nada histórico. Enfim, o dono foi lá e marretou a residência de madrugada. Não havia mais nada a ser tombado na manhã seguinte.

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  5. Daniel Moratori

    Que absurdo. A ferramenta iria salvaguardar a edificação dele. Da para ver que o senhor não entende nada sobre tombamento.

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  6. Antônio

    O Proprietário está certo. Se a fachada for de “interesse público”, o que quer que isso signifique, que faça uma proposta de compra do imóvel. Como o governo simplesmente teve a intenção de colocar a edificação dele sob a guarda de burocratas e tirar do proprietário a possibilidade de ele escolher entre manter a arquitetura ou vender pelo melhor preço, ele fez o ato certo e manteve íntegro seu direito de propriedade. Se a vereadora fosse honesta em seus propósitos, deveria demonstrar as consequências do tombamento e dar a opção ao proprietário entre optar em manter a fachada ou tombá-la. Escolha de políticos, de cima para baixo, devem ser respondidas da forma como foi feita. Parabéns pela atitude, e que o proprietário preserve em memória suas experiências, pois isso o governo jamais poderá desapropriar.

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  7. Yasmin Baron

    Esse proprietário teve muita sorte de saber o que isso significaria, porque tá cheio de gente por aí que sem tal presença de espírito virou refém do “desejo coletivo” que alguns (esses sim realmente egoístas) falaram aí em cima. Se o governo quer o prédio intacto que compre pelo preço justo de mercado.

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  8. Bruna

    E acabou por detonar a casa que tanto amava e transformá-la numa coisa desfigurada e mutilada. E lá sentou, cheia de razão. Que história mais triste..

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  9. Otávio Gonçalves

    Nossa, que história mais triste. Já começa equivocada pelo título, visto que a edificação nem chegou a ser tombada de fato. Quem destruiu a própria história e identidade foi o proprietário, numa atitude no mínimo egoísta. É uma pena, pois isso reflete – não só nesse caso – a total falta de conhecimento de um instrumento jurídico como o tombamento, consequência de anos de luta pela preservação do patrimônio cultural. Como efeito, esse tipo de proteção iria fazer o que, em tese, ele já estava fazendo, preservando-a… A propriedade continuaria a ser dele, ele poderia vender, alugar, reformar (e se optasse, contaria com recursos públicos para isso). No entanto, não poderia fazer o que fez, descaracterizá-la e jogar toda sua trajetória no lixo.

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    • Cristiano Fernandes

      Realmente um ato egoísta. Primeiro porque existem vários níveis de tombamento. Somente fachada, entorno, interior, etc….Essa história soou realmente como um ato de egoísmo porque mostra, claramente, que havia um medo intrínseco ai de perder o “valor” comercial do imóvel. Se era tão importante assim a memória da casa, permitisse o tombamento mesmo que perdendo direitos. Se não o fez, outros interesses foram superiores ao interesse em preservar a memória do casarão. Afinal, de que adiantou? Mas enfim, cada um faz o que quer com o que é seu, mas não adianta um texto sensacionalista para explicar algo que é o que a maioria faz. Destrói antes que alguém se proponha a proteger.

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